Chamada de Trabalhos

vista nº 5 |  Vistas imperiais: visualidades coloniais e processos de descolonização 

Editoras convidadas: Teresa Mendes Flores (FCSH-NOVA e Universidade Lusófona) e Cecília Järdemar (Konstfack University of Arts, Estocolmo)

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Appel à Contributions FR

Llamada de Trabajos ES 

  

Aeroporto Gago Coutinho. Estação aérea e Torre de Controle do Aeroporto. Diapositivo de Vasco Campos. Ed. Focarte, L. Marques. SD. Dim. 90x139 mm. Col. A. Guerra. Fonte: Site Arquivo Digital: Lourenço Marques em Postais Ilustrados.  

Nos últimos anos, tem-se verificado um maior acesso e um crescente interesse pelos arquivos produzidos pelos países europeus colonizadores e, quando se preservaram, pelos arquivos dos países que se tornaram independentes. Este interesse deve-se, em alguns casos, ao fim de barreiras legais que impediam o acesso ou divulgação dos arquivos, e porque, passadas várias décadas dos processos de descolonização, que motivaram traumas e incompreensões entre os intervenientes das diversas fações, uma nova geração de académicos e não académicos, nomeadamente, artistas, pretende compreender melhor essas histórias. Por outro lado, o trabalho de digitalização de alguns destes espólios tem tornado possível revelar a existência destes mesmos arquivos, facilitando a sua visibilidade e contribuindo para a sua receção fora do núcleo restrito dos historiadores e historiadoras políticos e sociais. Assim, na literatura, no jornalismo, no cinema, na antropologia, na história da ciência, na fotografia e nas artes, entre teóricos, como entre artistas e outros protagonistas do mundo da cultura, tem-se multiplicado o trabalho crítico sobre estes objetos da história contemporânea do século XX, cujos efeitos ainda se fazem sentir. 

O número 5 da revista VISTA parte da própria noção de “vista”, na sua diversidade de significados, para propor um debate sobre os regimes de visualidade coloniais e pós-coloniais e a sua relevância contemporânea. 

A ideia de “Vistas Imperiais” parte de um célebre artigo de W. J.T. Mitchell, intitulado “Imperial Landscape” e que foi publicado na colectânea Landscape and Power (Chicago: Chicago University Press, 2002). Neste artigo, o investigador norte-americano contestava a interpretação de que o género paisagem era especificamente um género da pintura, bem como um género moderno e ocidental (Clark, 1979). Bastou-lhe, para destronar estes dois argumentos, lembrar a pintura chinesa e as mais antigas pinturas murais greco-romanas, para propor outra interpretação: o género paisagem floresce nos regimes imperiais, e usa todos os media disponíveis. Aí, as imagens do todo, que caracterizam a ideia de paisagem - visão ampla, distanciada, de uma grande parte de um terreno ou geografia (um plano geral cinematográfico) -, torna-se afirmação identitária, política de identidade entre o Eu e os Outros, localizados no espaço e no tempo. Mitchell contestava, assim, que o género paisagem fosse uma mera afirmação do estético (Gombrich, 1950), para defender a versão alternativa de que a paisagem (tanto a representada como a representação) é uma (mais ou menos) poderosa forma de afirmação política, que oculta sempre um “lado negro” (Barrell,1983), que é uma “formação social” (Cosgrove, 1984) e que tem os seus foras de campo, as suas distribuições de sujeitos e poderes: “a paisagem circula como um meio de troca, um lugar de apropriação visual, um foco para a formação da identidade” (Mitchell, 1994 (da 1ª edição): 2).

Neste número da VISTA, partimos deste mote da “paisagem” para interrogar a produção de imagens que diretamente possam refletir sobre estes regimes imperiais, mas não nos limitamos exclusivamente às paisagens, no seu sentido mais estrito, nem apenas exclusivamente a imagens. Embora, seja requisito para a aceitação de propostas de artigos, uma aproximação às temáticas e abordagens da Cultura Visual.

No campo da Cultura Visual, interessa-nos tornar as imagens contidas nestes arquivos coloniais objetos de reflexão e interpretação em si mesmas, enquanto media que, performativamente, construíram e constroem as histórias que também testemunham. Pretendemos, nesta edição, evidenciar a produção visual, escondida nos arquivos de fotografia, de filmes, de gravuras e desenhos, de mapas, de pinturas, de vídeos, de objetos, etc. e os seus diversos modos de uso, relacionados com a temática colonial - sejam arquivos institucionais ou pessoais, públicos ou privados, nacionais ou internacionais. Interessa-nos, de igual modo, trazer para este número da VISTA, reflexões sobre o invisível, o que ficou fora de campo, os interditos, os códigos de visualidade que transcendem a prática das imagens mas que a organizam. Convocamos também, para o debate a importância das Humanidades Digitais e do contexto contemporâneo da comunicação em rede, não só na problemática dos arquivos e museus em linha, como na disseminação, na rede, de representações que, nos diversos campos sociais, multiplicam as representações destas “vistas imperiais” e as suas eventuais, imagens de resistência.

Em suma, acolhemos contributos para debater a política das imagens e dos olhares nos contextos coloniais e no contexto das sociedades pós-coloniais contemporâneas.

  

Barrell, J. (1983). The Dark Side of the Landscape: The Rural Poor in English Painting 1730-1840. Cambridge: Cambridge University Press.

Clark, K. (1979). Landscape into Art (Fist Published 1949). New York, Hagerstown, San Francisco and London: Harper&Row Publishers.

Cosgrove, D. (1984). Social Formation and Symbolic Landscape. Madison: University of Wisconsin Press.

Gombrich, E. (1950). The Renaissance Theory of Art and The Rise of Landscape. In Norm and Form. Studies in the Art of the Renaissance (pp. 107–122). London: Phaidon Press.

Mitchell, W. J. T. (1994/2002). Imperial landscape. In W. J. T. Mitchell (Ed.), Landscape and power (2nd ed., pp. 5–34). Chicago and London: The University of Chicago Press. [1ª edição de 1994]

 

Datas Importantes 

Data-limite de submissão dos trabalhos: 2 de setembro de 2019

Data-limite da notificação sobre a aceitação: 2 de outubro de 2019

Publicação da revista: 20 de dezembro de 2019

 

 

vista – revista de cultura visual  (ISSN 2184-1284) é uma revista arbitrada por pares e opera num processo de dupla revisão cega. Cada trabalho submetido será distribuído a dois revisores previamente convidados a avaliá-lo, de acordo com a qualidade académica, originalidade e relevância para os objetivos e âmbito da temática do número editado. Os artigos para o dossier temático Vistas imperiais: visualidades coloniais e processos de descolonização podem ser enviados em inglês, português, espanhol e francês para os e-mails das editoras convidadas: teresa.flores@sapo.ptCecilia.Jardemar@konstfack.se. As orientações para autores podem ser consultadas aqui

 

 

 

 

Chamada Permanente de Trabalhos

As submissões para a vista - revista de cultura visual estão abertas em permanência. São aceites artigos, recensões (livros, filmes, exposições...), conversas e projetos visuais em torno da temática da imagem escritos em português, inglês, espanhol e francês. Estas propostas podem ser enviadas para o email da vista: vista.culturavisual@gmail.com.  

vista – revista de cultura visual  (ISSN 2184-1284) é uma revista arbitrada por pares e opera num processo de dupla revisão cega. Cada trabalho submetido será distribuído a dois revisores previamente convidados a avaliá-lo, de acordo com a qualidade académica, originalidade e relevância para os objetivos e âmbito da temática da revista.  Os trabalhos para a chamada permanente de trabalhos podem ser enviados para o e-mail da vista, vista.culturavisual@gmail.com. As orientações para autores podem ser consultadas aqui